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O HOMEM DA CASA É MINHA MÃE

  • Foto do escritor: Victor Godoy
    Victor Godoy
  • 14 de mai. de 2023
  • 3 min de leitura

Neste final de semana de dia das mães, quero propor uma reflexão. Na última década, o número de domicílios chefiados por mulheres no Brasil, especialmente sem cônjuge, disparou. Segundo levantamento feito pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV Ibre) entre 2012 e 2022, o número de lares com mulheres ocupando a função de protagonistas cresceu 72,9%, passando de 22,2 milhões para 38,3 milhões. A participação das mulheres como responsáveis por seus lares, passou de 35,7% para 50,9%, enquanto a dos homens foi de 64,3% para 49,1%.


Lembro do dia que meu pai morreu, em uma conversa entre eu, meu irmão e meus  tios, um deles  disse para o meu irmão que por ser o filho mais velho, a partir daquele momento ele seria o homem da casa. Um tempo depois, quando meu irmão foi viajar, eu escutei a mesma coisa  já que ia ser só eu e ela. Parei pra refletir sobre isso há um tempo atrás, e cheguei a conclusão  que por mais que eu e meu irmão tenhamos feito nosso melhor no dia a dia, ajudando minha mãe com tudo que foi, e é possível, nem eu, nem meu irmão, nunca nos tornamos de fato o "O homem da casa". 


Não lembro a última vez que minha mãe foi em alguma apresentação minha da escola! Em todas elas, desde que eu tinha uns 7 anos, ela não pode estar presente. Ela estava trabalhando. Durante toda minha adolescência, vi minha mãe fazendo todo dia a mesma coisa: acordar ainda de madrugada, se arrumar, pegar um ônibus até SP, tomar o metrô, e ainda caminhar até o trabalho, fazendo sol, chuva, calor, frio, todo dia ela estava lá. Me lembro de muitas madrugadas em que ela ficou virada cuidando de mim porque eu estava doente, e de manhã ela tava lá, pronta para outro dia.


Um dia rolou uma tempestade em nossas vidas que mudou tudo. Meu pai faleceu, eu tinha 15 anos e meu irmão 17. Minha mãe viu meu pai ser enterrado numa sexta-feira, e mesmo com toda dor pela perda do amor da vida dela, na segunda-feira ela já estava lá, trabalhando, correndo, fazendo acontecer. Eu não estou contando isso tudo com objetivo de alguém ler e pensar "coitada", conto porque esse é de longe o meu maior exemplo de força, de amor, e de como alguém deve ser, ela sempre foi o homem da casa mesmo sendo uma mulher. 


Assim como a minha mãe, eu sei que existem outras milhões de mães, mulheres que estão lá, lutando. Mães sozinhas, mães casadas, mães de coração, todas são mães, o que acompanha é só um adjetivo bobo, mas que infelizmente carrega consigo um peso tão grande perante a sociedade. Mulheres que mesmo com histórias tão diferentes, compartilham de semelhanças tão grandes, me fazendo ter cada vez mais certeza de que o título de “O homem da casa" é só mais um daqueles que na grande maioria das vezes não faz nenhuma diferença, diferente dessas mulheres que  24 horas por dia, 365 dias por ano, fazem o papel de ser mãe, trabalhadora, professora, psicóloga, cozinheira, amiga, conselheira, e tudo mais que for necessário ser. Será que elas precisam mesmo de um homem da casa? 


Para minha mãe, deixo o meu mais sincero obrigado por tudo Dona Ana, amo você. 


-Texto publicado no Jornal A Tribuna em 14/5/2023-

 
 
 

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